Adeus, Brasil! Mandem minha passagem de volta
qua, 30 de abril de 2014 00:00
Rio de Janeiro, 30 de abril de 2014
Prezado diretor,
Seis meses atrás enviou-me com a missão de cobrir a Copa do Mundo no Brasil. Estava prestes a conhecer a terra onde há exatos 514 anos, Pedro Vaz de Caminha descrevia como um “novo mundo”. Segui em direitura a um sonho, mas vi que nem tudo são flores no jardim brasileiro.
Durante a minha estadia, identifiquei pessoas e lugares das mais distintas realidades. Encontrei brancos, negros, pardos, mulatos, ricos e maltrapilhos e, acredite, em meio a tudo isso, vi racismo. Certo dia, aflito com o dinheiro que derramei em táxis pelas ruas, optei por pegar um ônibus. No percurso, curvei-me ao ouvir as histórias dos passageiros, verdadeiros heróis anônimos. Um deles disse que aquela terra, que outrora foi do povo, não é mais de ninguém. “Se não é de direita, é de esquerda”, indagava outro. Involuntariamente, fui descobrindo que o preço da Copa vai além dos valores cobrados nos estádios.
Enquanto alguns brigam para escolher o melhor restaurante, outros procuram comida. Aqui, defendem partidos e religiões com unhas e dentes. Assuntos pendentes são distorcidos, e políticos deixam o banco dos réus para ganharem um espaço no horário nobre. Estão em ano de eleições presidenciais, mas creio que o pleito está garantido há sete anos, quando a Fifa assumiu o controle do país. Dizem que são filhos deste solo, uma pátria amada, mas sequer sabem que estão órfãos. Alguns, feridos na alma, fazem justiça com as próprias mãos, na tentativa de exterminar a violência.
Hoje, quando acordo, o canto dos pássaros chega a perder o encanto quando do Brasil eu me levanto. O povo está à margem do perigo, e o viés da alegria foi sufocado. Aqui ainda se vive uma ditadura, cultural. Um vírus de hipocrisia se espalha em epidemia visceral.
Caro diretor, peço perdão pelo meu pranto, mas é um tanto, daquilo que passei. Conforme prometido, informo que a seleção brasileira é favorita e tem grandes chances de se tornar campeã. Porém, espero assistir esse desfecho a léguas de distância, pois nesta Copa um país se perdeu. Em revolta, suplico que mandem minha passagem de volta.
Cordialmente…
A propósito, roubaram minha identidade
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A CARTA
O relato inaugurado nesta edição é fictício. Ainda assim, retrata a realidade brasileira. Há duas semanas, um jornalista dinamarquês despediu do país ao perceber a utilização de pessoas como ele, estrangeiro, para cobrir as mazelas do governo. Em 31 dias, o mundo da bola se volta ao Brasil, onde faltam vagas para voluntários da Fifa e sobram oportunidades para ajudas em postos de saúde. O maior gol contra da Copa não balançou as redes, mas move as sujeiras para a sombra dos estádios.
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Infelizmente, o texto retrata nossa fatídica realidade. #copapraquem?
Texto excelente, está de parabéns.
A Carta escrita descreve com exatidão o que este pais, dito nosso, esta vivendo, estamos a beira do abismo, estamos a ponto de nos tornarmos a proxima CUBA , ou VENEZUELA, nosso cidadaos estão cada vez mais dependentes do governo para sobreviver , e é isto que eles querem , nosso povo esta cada vez mais alienado, e dependente.
Não somos mais o pais das diretas já , pois a maioria ja se acostumou com o que vivemos… fico muito triste em saber que tudo em que li nesta carta é verdade e que realmente e isso que estrangeiros pensam de nós … como diria Marcola em sua entrevista a GLOBO NEWNS … “estamos todos no inferno”.
Assistam um video no youtube com o titulo: Rolando Boldrin SINTO VERGONHA DE MIM.