Um carrinho ou uma bola? – Há 25 anos, não respeitam as nossas crianças
sáb, 12 de julho de 2014 01:25O resultado de uma ditadura que ainda perdura pelo Brasil
PJ GODOY – Manhã de 10 de julho de 2014. Como uma ironia do destino, o relógio disparava às 7h01. Aqueles números que me reservaram o pior dos pesadelos no dia anterior se esforçavam para que eu não perdesse a hora. Em meio a um barulho de dar inveja a qualquer máquina, desativei o despertador e liguei a televisão. Assisti a uma propaganda onde crianças humildemente relatavam jamais ter visto o Brasil campeão. O trauma cedia espaço para uma revolta.
Em menos de duas semanas, a capital de Minas foi o cenário de tragédias resultadas de interesses alheios. Sob investigações de superfaturamento de até 350%, a obra de um viaduto caiu e tirou a vida de duas pessoas, que perderam a chance de testemunhar o retrato de quem rege o principal esporte do país. Há 25 anos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não honra o seu último nome.
Envolvido em escândalos de enriquecimento ilícito, Ricardo Teixeira deixou o comando da CBF em março de 2012, entregando o cargo após 23 anos para seu vice, José Maria Marin. Investigado por ligações em torturas durante o regime militar, o ex-deputado estadual seguiu a receita obscura de sucesso.
A partir de 2015, Marin deixará a presidência “imperial” para Marco Polo Del Nero, atual vice-presidente escolhido numa eleição sem concorrentes. A cada ano, o Circo Brasileiro de Futebol fatura R$ 300 milhões, além de bilhões gerados a clubes e patrocinadores. Enquanto o país comemora 50 anos de democracia, a entidade conduz seu navio de ditadura pelas águas turvas do seu principal esporte.
Num ato de revolução, resolvi mudar de canal, mas fui surpreendido com outro clichê. Acompanhei um comercial onde pediam respeito às nossas estrelas. Senti um alento quando lembrei das conquistas, mas logo frustrei-me ao perceber que elas poderiam servir de disfarce para aqueles que sequer respeitam o sonho de nossas crianças.
- A partir de 2000, foram investidos R$ 1,4 bilhão em divisões de base;
- Para disputar a primeira e segunda divisão da Liga Nacional, os clubes deveriam ter academias de jovens jogadores;
- Da seleção atual, 90% vieram das academias de jovens jogadores;
- Em parceria com escolas, vários centros de treinamento foram criados pela Federação para crianças abaixo de 14 anos;
- Treinadores foram mandados para outros países para aprenderem novas culturas;
- Criou-se a Federação Nacional dos Técnicos;
- Os gastos dos clubes passaram a ser monitorados, com uma filosofia de não gastar mais do que se ganha;
- Enquanto se gastou mais de R$ 28 bilhões para a Copa no Brasil, os alemães não passaram dos R$ 12,9 bilhões em 2006;
- Com uma nova política de preços, o campeonato alemão apresenta a maior média de público do futebol;
- Antes de deixar o Brasil, a Federação Alemã doou R$ 30 mil para a comunidade indígena da região onde ficou hospedada.
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